Reconhecer a fome no Brasil é melhor que negá-la

Por Francisco Menezes 

“O Brasil, junto com os demais países que integram a Organização das Nações Unidas (ONU), foi signatário, em 2015, do acordo que estabelece os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Neste acordo, assumimos o compromisso de, até 2030, erradicarmos a fome em nosso território. Vínhamos de uma trajetória exitosa, visto que em 2014 a própria ONU reconheceu que nosso país saíra do Mapa da Fome Mundial, baseada nos indicadores que ela utiliza para essa classificação. O país avançara muito, mas ainda faltava fazer mais para garantir esse direito fundamental a todos os que vivem aqui.

Assim, soa imprópria a afirmação do presidente da República de que não há fome no Brasil. Pior do que isso: deixa transparecer desinformação sobre a situação do país que governa e desrespeito com uma parte da população que luta de todas as formas para sobreviver. Ainda mais quando consideramos os quatro últimos anos, em que, a partir dos próprios dados oficiais, observa-se o acelerado crescimento da extrema pobreza, resultante da forma como se enfrenta a atual crise econômica, com o repasse para os mais pobres do pagamento do ônus de uma situação que não criaram.Extrema pobreza redunda inevitavelmente em fome. Mas, paradoxalmente, assiste-se ao desmonte de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, algumas delas premiadas e tomadas como referências em outros países e que vêm sendo descontinuadas ou tendo suas dotações orçamentárias acentuadamente reduzidas. Na mesma linha, o atual governo extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão que reunia sociedade e governo para construção e monitoramento desta política nacional.”